sexta-feira, 13 de março de 2015

Miragem



Abro os olhos e vejo que o Sol já se exibe lá fora, ou pelo menos uma pequena demonstração de luz é posta amostra. Não há Sol às cinco da manhã. Talvez eu queira encontrar meu Sol.
Junto forças contra minha vontade de permanecer embaixo de minha coberta e me levanto com a expectativa de um dia melhor que o anterior.
A água quente me desperta de um sono maior do que eu imaginava sentir, e planta em minha mente planos para se, por acaso, eu encontrar meu Sol.

A condução, nem tão rápida, nem tão devagar, me leva até o destino de meus sonhos. Não há beleza no prédio dos intelectuais da literatura, há formosura nos interessados por descobrir a proporção áurea dos elementos terrestres (e não tão terrestres).
            Minha aula é a mesmice de sempre. Português, português, português. Será que é porque eu faço português? Queria entender porque sinto tanta saudade dos cálculos.
            Ao final, me deparo com a mesma sensação tola de estar faltando alguma coisa para completar a rotina. O Sol? Ele não faz parte da minha rotina, embora eu tanto quisesse. Não há luz, não há raio, não há nem mesmo uma faísca.
           Eu fico a procurar, tentando preencher a falta que um ser, que eu nem sei quem é me faz. Ou sei? Talvez, quem sabe.
           De repente eu avisto uma miragem. Tão distinta e tão desprezada por todos, menos por mim. Acho-a magnífica, simplória, até mesmo interessante.
           Escuto risadas, xingamentos, ofensas, mas não me importo. Tão bela e tão afortunada imagem, porém pequena. Tão pequena que me dá vontade de colocá-la no bolso. Para mim é perfeita.
           Seu formato, seu sorriso, seus olhos, sua boca, sua voz. Sua risada ecoa pelos meus ouvidos de modo a maravilhar-me com seu doce som. Não sei como uma miragem tão pequena pode fazer um rebuliço tão grande dentro de um pequeno órgão pulsante.

           Que miragem linda! Já disse, não? E fofa! Ah, e como é fofa...

           Me pego feito uma tola a admirar uma beleza que não chama tanta atenção. Comigo é diferente, ela prende meus olhos, suspende minha respiração. Tem-me como uma boneca que não fala e nem pisca.
           Eu queria deixar de ser boneca e ir até ela. Queria dizer-lhe que ela ganhou, que já pode parar com o jogo. Meu coração já foi tomado de meu peito.
           Queria tocar-lhe as têmporas, acariciar seus cabelos e lhe ofertar ósculos com a ternura de nenhum outro dado anteriormente. Queria encostar minha cabeça na dela e não dizer nada, apenas sentir a sua respiração junto à minha. Apenas sentir seu calor e seu suor se misturarem ao meu. Apenas me tornar sua.
           Não amo, não, amor talvez não seja a palavra ideal. Ela me encanta. Instiga-me. Provoca-me. Desafia-me a querer algo tão diferente de mim, ter algo parecido comigo e ao mesmo tempo tão distante de minhas mãos. Ela quer que eu fique louca.
           Dói-me saber que minhas sensações se dão em apenas um instante, pois logo ela se vai. Minha miragem desaparece, se esvai entre minhas mãos. Possui um compromisso. Mas que mundo é esse que não nos permite viver sem sermos infortunados com horas e horas marcadas?

           Minhas canções me deixam mais perto dela, trazem-na para mim. E quando dou por mim, estou de banho tomado, deitada em minha cama com meu cenho voltado para a parede e desejando sonhar. Sonhar os traços do meu Sol, e conseguir dizer-lhe que meu sentimento não é falso como uma miragem, mas possuem batimentos.

(E.R)

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